sábado, 31 de outubro de 2009

Jesusalém - Livro Um - A Humanidade

A HUMANIDADE

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

[...]
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa do regresso

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Para introduzir o Livro Um, Mia Couto escolheu uma autora que já comentamos aqui no Lusovox. Sophia é sempre profunda e consegue atingir todos os estados de consciência!

Jesusalém - Leituras Partilhadas


O primeiro livro que quero ler com vocês é o último do Mia Couto, Jesusalém.

O autor dispensa apresentações. É, sem dúvida, um dos mais conhecidos da língua portuguesa.

Eu tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, podem conferir no Devezenquandário.

Como em todos os livros de Mia Couto, este é aberto com uma citação. Desta vez, Mia escolheu Hermann Hesse, em Viagem pelo Oriente:

Toda a história do mundo não é mais
que um livro de imagens reflectindo
o mais violento e mais cego
dos desejos humanos: o desejo de esquecer.

Os capítulos dividem-se em três "Livros": A Humanidade, A Visita e Revelações e Regressos.

Muito bem, vamos deixar de introduções e partir para o que realmente interessa: Livro Um, Capítulo Um...

Leituras partilhadas


Tenho o costume de, sempre que faço uma nova postagem, procurar uma imagem no Google que a ilustre.
Quando fui procurar uma imagem para apresentar a nova seção do Lusovox, deparei-me com esta foto maravilhosa e comovente. As três crianças dividindo um livro, dividindo a experiência da viagem literária.
Pela imagem, podemos sentir que aquele livro as transporta para um mundo colorido, totalmente diferente da vida aparentemente sofrida que levam.
É isso... as leituras transformam-nos.
Com esta nova seção, espero compartilhar com todos as minhas viagens literárias. Não vou comentar aqui nenhum livro que já li, mas os que lerei a partir de agora. Capítulo a capítulo espero dividir as minhas impressões e emoções com vocês.
Por favor, façam o mesmo comigo, ok? Este espaço é, ao contrário de muitos regimes governamentais por aí, realmente democrático.
Espero que gostem da novidade.
Beijos e abraços a todos

Voltando das férias


O Lusovox finalmente retornou das férias. Prolongadas, eu sei, mas necessárias.

Estou voltando com muitas idéias diferentes para este espaço, começando hoje com uma novidade: a série "Leituras comentadas".

Continuem acessando o Lusovox e dando opiniões. Sugiram autores e livros, critiquem, participem, ok?

Aguardo notícias de todos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Férias

O Lusovox está entrando de férias.

Eu sei, eu sei que mal começamos a trabalhar, mas somos daqueles privilegiados que trabalham um mês sim, outro não (quem dera!)...

Estaremos de volta em março, a partir do dia 09, com o livro Sagrada Esperança, de Agostinho Neto, recheadinho de poemas de luta e de protesto.

Até lá!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen - breve biografia

Sophia retratada por Arpad Szenes

Sophia de Mello Breyner Andresen nasce a 6 de Novembro de 1919 no Porto, onde passa a infância. Entre 1936 e 1939 estuda Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publica os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Casada com Francisco Sousa Tavares, passa a viver em Lisboa. Tem cinco filhos.

Participa ativamente na oposição o Estado Novo e é eleita, depois do 25 de Abril, deputada à Assembleia Constituinte.

Autora de catorze livros de poesia, publicados entre 1944 e 1997, escreve também contos, histórias para crianças, artigos, ensaios e teatro. Traduz Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses.

Recebeu, entre outros, o Prêmio Camões 1999, o Prêmio de Poesia Max Jacob 2001 e o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana 2003.


Por delicadeza

Bailarina fui
Mas nunca dansei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dansei no avesso
Do tempo bailado

Dansarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida»

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Nota: aqui, mais uma vez, a poeta grafa a palavra "dançar" e seus derivados com a letra"s": "dansei"

Com este poema extremamente autobiográfico encerro minha seleção de O Nome das Coisas, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Espero que tenham gostado!


A forma justa


Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Oásis


Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu – o canto
Da flauta será nítido no lido
Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Os erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida – o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de um poema obstinado?

1975

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

A casa térrea


Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre

Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás – como se diz – a casa térrea –
Construirás a partir do fundamento

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Liberdade


O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba –
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Breve encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Enquanto longe divagas

I

Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba


II

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso


III

Pois no ar estremece tua alegria
- Tua jovem rijeza de arbusto –
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto na fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dansam em mim os pés do teu regresso

Junho de 1974

Nota: No último verso, lê-se "dansam". A grafia foi escolhida pela autora. Este mesmo "trocadilho" será visto mais adiante em outro poema, Por delicadeza.


Com fúria e raiva

El Roto / El Paris / El Demagogo

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Junho de 1974

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Paráfrase

Odisseia, 12. 17-28
Papiro séc. III-II a.C. - Egito

«Antes ser na terra escravo de um escravo
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras»
Homero, Odisseia

Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


O Palácio

Templo de Cnossos - O palácio do Minotauro

Era um dos palácios do Minotauro
- O da minha infância para mim o primeiro –
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)

Estátuas escadas veludos granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito

Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infância – para mim o vermelho

Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia

Era um dos palácios do Minotauro
- O da minha infância para mim o primeiro –
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a fúria o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Guerra ou Lisboa 72

Partiu vivo jovem forte
Voltou bem grave e calado
Com morte no passaporte

Sua morte nos jornais
Surgiu em letra pequena
É preciso que o país
Tenha a consciência serena

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Che Guevara


Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Lisboa, 1972